O Gato Preto e Branco
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Uma Pequena Fábula

Era uma vez uma comunidade de animaizinhos felizes que viviam em uma ilha, perdida em algum lugar do Oceano Pacífico. Havia felinos, caninos, aves, insetos, aracnídeos, primatas, répteis, peixes, entre outras "famílias". Todas sempre coexistiram em harmonia, dentro de um equilíbrio resistente, que poderia ser interpretado como (sobre)natural.

Em um não-muito-belo dia, entretanto, uma nuvem escura de maldade pairou sobre a inocente ilha. Todos rapidamente se juntaram com seus semelhantes e procuraram esconderijo, sem saber o que aquela escuridão densa e repentina significava.

A sábia Coruja alertou:
"Meus companheiros, isso só pode significar uma coisa: o fim dos nossos tempos!"

O orgulhoso Leão respondeu:
"Besteira! Nossa sociedade sempre existiu em equilíbrio, e sempre continuará existindo!"

O assustado Coelho concordou com o Leão:
"É verdade, já passamos por coisas piores! Se nem aquela invasão dos macacos pelados que nos caçavam quase que por diversão conseguiu nos abalar, podemos enfrentar qualquer coisa!"

"Ei, cuidado com o que você diz!", retrucou um dos Macacos (peludos). "Não temos nada a ver com aqueles decadentes egoístas!"

"Me desculpe Macaco, mas você entendeu o que eu quis dizer, pois..."

Neste momento vários clarões, acompanhados de sons apocalípticos, inundaram a pequena ilha, e em seguida fogo começou a cair do céu, queimando árvores e se espalhando para outras plantas. Cada família animal permaneceu unida, mas todas elas acabaram se dispersando. Coelhos foram para suas tocas, peixes para seus lagos e rios, felinos e caninos para suas respectivas cavernas, insetos para seus ninhos, aves para as montanhas mais altas. Mas todos ouviram a voz da Coruja soar forte em meio ao caos, uma voz quase fantasmagórica:

"Será que seremos sempre superiores àqueles que quase trouxeram a nossa ruína? Será que nosso equilíbrio poderá resistir ao desespero pela sobrevivência, à tentação que traz o egoísmo em seus mais variados graus? Seremos mesmo capazes de superar aquilo que infectou irreversivelmente aqueles... homens?"

Dias se passaram, e as famílias que tinham algum estoque de comida foram obrigadas a sair da segurança de seus esconderijos para procurar mais. Alguns coelhos encontraram os restos de uma árvore frutífera, com muitas folhas e alguns frutos ainda comestíveis, e se instalaram por ali. Touros viram aquela reserva de alimento e não pensaram duas vezes antes de expulsar os coelhos dali, da única maneira que encontraram: matando-os. Macacos também se interessaram pelo local, e tentaram afastar os touros atirando pedras, sem bons resultados, e logo pegaram alguns galhos quebrados, afiados, e eliminaram sua competição. Em toda a ilha cenas semelhantes podiam ser vistas.

Eventualmente os animais carnívoros, quase mortos de fome, encontraram os últimos refúgios daqueles outros animais que tinham conseguido achar alguma comida. Desesperados e completamente dominados pelo instinto, cada carnívoro destruiu completamente seus alvos, sem deixar nenhum sobrevivente. Sem mais nenhuma presa natural à vista, quando um carnívoro encontrava outro, só o mais forte sobrevivia ao encontro.

Foi neste cenário que o Lobo, solitário e triste por ter devorado alguns de seus amigos, mas ainda assim com fome, pois muito tempo já havia passado, acabou encontrando os restos do esconderijo de alguns roedores. Haviam só ossos e pêlos espalhados no local, mas seu olfato aguçado, mais ainda devido à fome, encontrou alguns filhotes vivos escondidos, perto de um corpo ainda no início de sua decomposição, alguém que provavelmente se sacrificara para garantir a sobrevivência de sua prole.

Sorrateiramente, ele se aproximou dos filhotes e preparou o ataque, pensando: "Se não for eles, serei eu."

No início de seu impulso matador, entretanto, ele lembrou das palavras da Coruja, e ficou paralisado. Sem mais conseguir se mover, mesmo com a loucura da fome, só uma palavra passava pela sua mente: Egoísmo. Aqui neste local escondido estavam possivelmente as últimas criaturas vivas na ilha (e com certeza o último lobo), e ele só estava preocupado com a sua própria sobrevivência. Valeria a pena acabar com qualquer possibilidade que a vida, em si, tinha de continuar naquele local isolado do resto do mundo, por alguns dias a mais de sua vida? A escolha certa estava muito clara, mas ainda assim era muito difícil: Ser o responsável pela extinção da totalidade da vida animal, ou sacrificar a sua vida, ser o responsável pela extinção de sua espécia, mas deixar que a vida, no seu sentido mais abrangente, voltasse a fluir?

Foi necessária toda a sua força de vontade, a última gota de energia que restava em seu corpo, para que o Lobo conseguisse se afastar daquele local. Solitário ele havia passado os últimos dias anteriores, e ainda solitário ele passaria os poucos que lhe restavam, mas ele estava em paz com a situação. Sabia ter tomado a decisão correta, mesmo tendo traído todo o seu instinto de sobrevivência, instinto esse que sempre havia ajudado, não só ele, mas todo aquele ecossistema a sobreviver em equilíbrio. Seus últimos pensamentos foram:

"Novas eras requerem adaptações e novas atitudes, mas o equilíbrio e a continuidade da vida nunca devem ser esquecidos, mesmo que isso signifique o sacrifício. Eu me sacrifico, mas assim dou mais uma chance à vida desta ilha para encontrar o equilíbrio perdido nesta tragédia."



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Paulo F. Jarschel, em 01/11/2011, às 20:42:18.

Tags: criações textos fábula animais equilíbrio vida

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Comentários:

Ernesto von Ruckert (wolfedler@gmail.com) disse em 03/11/2011, às 23:39:04:
Assim estamos nós, caro Paulo Felipe e desta situação não sairemos sem a atitude do lobo, isto é trocar o egoísmo pelo altruísmo. Os problemas sociais, na verdade, são os problemas pessoais, especialmente das pessoas poderosas. Se o egoísmo delas persistir a humanidade poderá até se extinguir. Urge que cada um começe a mundança em si mesmo. Parabéns pelo site.

www.ruckert.pro.br

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